Numa segunda-feira, sete e pouco da noite, ele se matou.
Não me surpreendi. Ele era autodestrutivo fazia mais de década. E por mais de uma década vivi no estado: o que mais pode acontecer? Havia chegado o dia do pior possível. Parte de mim era o sombrio, um sombrio que nunca mais iria desver; outra parte, um descanso terrivelmente amargo.
Tem vida parecida com fiapo, lampejo. Mas tem gente que tenta, tenta morrer, se entope de droga, álcool, rancor, risco, e não morre; alguns precisam até da ajuda de uma corda. Não vou me alongar nisso: posso sufocar – sem corda alguma.
Depois de um negócio desse, respirar sem aparelhos. Parte de mim, robótica. Levanta, faz abdominal e agachamento, dirige pro trabalho ouvindo notícia sem escutar nada, decide entre alcatra e coxão mole no mercado, insiste pra filha acordar e ir pra escola, paga o IPTU atrasado, compra vitamina D pra ninguém adoecer.
Cem por cento de mim, alerta. A todo e qualquer micro sinal, sinalzinho, filete, miligrama de sinal de que algo não vai bem. Nunca meu lençol foi tão áspero; o travesseiro, às vezes alto demais, noutras baixo. Ele era o pai dos meus filhos. Divorciados, mas pais dos nossos filhos. Agora, eu abandonada num projeto de dois.
Homens se matam quatro vezes mais que mulheres. Seguimos em frente porque é isso que a gente faz por quem a gente ama. A gente sobrevive – é o mínimo. Viver tem sempre desalento. De olhos fechados imagino uma luz difusa no cosmos e rezo não por ele, mas para ele: o mínimo que você pode fazer agora é proteger a gente. Como você pôde?
Minha avó, ao perder a filha de 15 anos num acidente de carro, continuou costurando e cozinhando pros filhos que ficaram. Muda. A gente, mulher, é acostumada a aguentar sem dizer uma palavra. Aí chamam a gente de guerreira. Rocha, eu chamava minha avó de rocha. E me vi toda endurecida igual, sem paciência pra coisa comesinha, richa de amigo, discussão em rede social, a disputa entre os poderes da República.
Pior quando dentro amoleceu, meu coração boiando numa tristeza gelatinosa, o corpo gélido derretendo numa choradeira corrente, contínua. Relembrei quem você tinha sido antes de começar a tentar morrer (nossa senhora, nosso amor foi inteiriço, você me ocupou inteira), antes de começar de fato a morrer. Demorou muitos anos pra conseguir, devastando tudo ao redor, onde num dia existiu uma espécie de floresta tropical do amor: alegre, barulhenta, colorida. Devastando violentamente.
Sua cara plácida no caixão, reconfortante. Revoltante também, você em paz; em volta, destruído.
Às vezes acho que você arquitetou com prazer seu gran finale, isso estancou seu desespero. A vida como espetáculo; o ato final – sua dor piscando em neon – pra te redimir do sofrimento que você causou. Uma morte para honrar uma vida. Porque uma vida só se desenha inteira no epílogo. No todo, a sua, um musical trágico. A vida como obra de arte – a gente desenha, encena, molda. A minha arte, rasteira: vomito palavras. No chão, com elas: assim sobrevivo a uma coisa dessas.
E todas as mulheres que não sabem escoar vísceras pela palavra, pelas mãos, por nenhum canto, e passam por coisa muito pior, quantas perdem filho e filha por bala (eles por bala da polícia; elas por bala deles). E todas essas mulheres neste Brasilzão, nesta América Latina?
Matam no peito é bola de canhão. E, na pobreza – sem comida delivery. Vamos comer uma coisa gostosa hoje, meninos? Privilegiada, mimada, mimando. Se você ainda deseja pizza com creme de pistache, se você pensa invenção tosca mas quero, um treco te move por um instante. A gente vive pra coisa besta mesmo, sentir o cheiro do manjericão no molho, o sabor de um beijo, do gominho de tangerina, o bilhete comovente que chega com um bolo de mandioca, requeijão de corte derretido, um abraço que amolece, uma dança com uma pessoa suave, ouvir Milton Nascimento.
You say, “Stop” and I say, “Go, go, go”
Oh no
You say, “Goodbye” and I say, “Hello, hello, hello”
A versão pra Hello, Goodbye dos Beatles no repeat como mantra. É assim que sobrevivo a uma coisa dessas, aguando as sementes da floresta viva com um choro sem pressa. Líquida, inadequada, no trabalho, no bar, no encontro, no mar, até a choradeira desaguar num momento oceânico, até a fronteira do ser se dissipar e se fundir com toda aquela água emendada no céu, com o todo, com você. A vida cintilando contra o sombrio à espreita. Na natureza, a morte é coisa comesinha.
LARA HAJE Jornalista e mestre em Políticas de Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), trabalho como repórter na agência de notícias da Câmara dos Deputados. Co-autora do livro “Paúra – um mergulho na síndrome do pânico” (2018), me aventuro pela ficção desde 2020. Fui quinto lugar no Prêmio Off Flip 2023 na categoria crônica, com “Tijolos de isopor”, e uma das 15 finalistas do III Prêmio Anna Maria Martins (2023), da União Brasileira de Escritores, com o conto “Merda, em árabe”. Meu conto “Pasta de Dente – modo de usar” está no livro “Terra firme e outras histórias” (2022), organizado por Noemi Jaffe.